Raiz, pele e palavra: conheça a história da jornalista Géssika Costa
Quando este perfil foi escrito, a jornalista Géssika Aline Lima da Costa, agora com 32 anos, estava em São Paulo, concorrendo a uma premiação nacional com mais uma reportagem cheia de sensibilidade. Formada em 2015, ela venceu e trouxe para Alagoas seu 30º troféu — o sexto em premiações nacionais — em uma carreira que já soma dez anos.
Voltando um pouco no tempo, a jornalista conta que a escolha pela profissão aconteceu durante uma gincana no Ensino Médio. O tema da equipe era a eleição americana daquele ano, com Barack Obama como principal candidato. “Enquanto produzíamos o material, descobri o gosto pela escrita e pela apuração das informações. Foi aí que decidi ser jornalista”, recorda.

Conheci Costa quando ela ainda estagiava. Depois, passou alguns meses com a gente na redação do TNH1 (meu antigo emprego), cobrindo as férias de um colega. Foi nesse período que conversamos sobre temas ligados às questões raciais. “Me incomoda a falta de representatividade nas redações. Somos bons, temos acesso às mesmas ferramentas de aprendizado e trabalho, mas é como se fôssemos invisíveis”, observa.
Na faculdade particular onde estudou, Géssika fazia parte do seleto grupo de apenas três pessoas não brancas da turma. Foi também nessa época que decidiu assumir sua identidade afro. “Alisava meus cabelos desde os dez anos. Não só eu, mas todas as mulheres da família”, relata. “Decidir fazer a transição capilar foi o primeiro passo para me tornar quem sou hoje”, acrescenta.
Depois de formada, encontrou poucos colegas de mesma ascendência atuando na profissão. Enquanto ouço seu relato, puxo pela memória e lembro de apenas três repórteres pretos com quem trabalhei. Nenhum deles ocupa cargo de chefia.
Filha de uma dona de casa e de um vigilante aposentado, Costa viveu até os 30 anos na mesma casa onde nasceu, no bairro da Ponta Grossa, periferia de Maceió. Volta sempre que pode para rever amigos e a família. “De vez em quando sou abordada por meninas do bairro ou por estudantes de Comunicação Social que veem em mim uma referência. Isso duplica meu senso de responsabilidade”, conta.
Apaixonada pelo jornalismo literário de Gabriel García Márquez, uma das particularidades do hobby é decorar o primeiro parágrafo de cada livro de Gabo. “É mania”, diz, sorrindo, enquanto cita o primeiro título e a tal frase. Sorrio de volta, admirada. Só faz esse tipo de coisa quem realmente ama as palavras.
Duas pérolas negras
“Imigrantes africanos enfrentam discriminação na terra de Zumbi” foi uma das reportagens que mais me chamou atenção do público. Nela, a jornalista relata a história de imigrantes africanos que vivem em Alagoas e enfrentam episódios de preconceito.
Mas foi “A pele que habito” que mais mexeu com a autora. “Falei sobre o perfil mais vulnerável de Alagoas, do qual eu também faço parte: jovens negros e de periferia”, diz. “Ofereci o prêmio que ganhei à memória de um primo, morto a facadas em Craíbas, aos 28 anos”, acrescenta, emocionada.
Me recordo então do Código de Ética da nossa profissão, que afirma: “Todo jornalista deve opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos.” Esse código parece correr pelas veias da minha colega de profissão — literalmente.

Atualmente, Géssika Costa atua como coordenadora de projetos na Associação de Jornalismo Digital (Ajor) e foi fellow do Dart Center, ligado à Universidade de Columbia, nos EUA.
Como jornalista freelancer, publicou textos no UOL, Estadão, Portal Terra, Yahoo, Agência Pública e Ponte Jornalismo. É fundadora e editora do Olhos Jornalismo, veículo de mídia independente de Alagoas, e foi correspondente do Portal Lunetas, dedicado à cobertura das infâncias no Brasil.
Em 2021, foi bolsista da Énois — um laboratório que trabalha para impulsionar diversidade, representatividade e inclusão no jornalismo brasileiro. No mesmo ano, em parceria com outras oito organizações de mídia independente do Nordeste, teve o projeto “Acessibilidade jornalística: um problema que ninguém vê” selecionado pelo Google News Initiative Innovation Challenge, etapa América Latina. Também integrou o Fundo de Auxílio Emergencial ao Jornalismo, da Agência de Notícias das Favelas (ANF), em parceria com o Google.

Já palestrou em diversos eventos de jornalismo pelo país e ministrou o curso “Como extrair e analisar dados das redes sociais” durante o 15º Congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), o maior da América Latina.
Em 2022, participou da programação do Festival 3i e, em 2024, voltou a palestrar no Congresso da Abraji.
(Perfil publicado em 2019 no portal TNH1 e atualizado em julho de 2025)